No primeiro artigo desta série, mapeamos o retrato geral da remuneração em 2025: quanto foi pago por setor, composição (fixo, ICP, ILP) e as propostas para 2026 com alta mediana de +30%. Agora entramos no ICP bônus e PLR. Qual KPI define o bônus? Quem bateu a meta? E o que as propostas de 2026 sinalizam?
O ICP mediano da Diretoria Estatutária no universo do Formulário de Referência da CVM (FRE), permaneceu estável entre 2022 e 2024 R$ 621k (2022), R$ 620k (2023), R$ 686k (2024). Na amostra das Assembleias Gerais Ordinárias e Extraordinárias (AGOE), a mediana sobe para R$ 1.232k por membro.
Essa diferença de 79% não reflete crescimento real: as 111 empresas com ICP declarado na convocação até abril têm porte sistematicamente acima da mediana do universo FRE.
Para medir variação real: matched sample, N=107. Ratio mediano empresa-a-empresa: 0,99x variação de −1%. O ICP agregado ficou estacionário.
Bônus e PLR são instrumentos juridicamente distintos. O bônus é uma gratificação discricionária, paga por liberalidade do empregador. A PLR é regulada pela Lei 10.101/2000 e pela Constituição Federal (art. 7º, XI): exige regras objetivas previamente estabelecidas e negociação com sindicato ou comissão de empregados.
Para executivos da Diretoria Estatutária, sem vínculo empregatício, essa distinção é menos determinante juridicamente, mas influencia o design da política: empresas com operações sindicalizadas de grande porte tendem a unificar a lógica do incentivo variável sob o guarda-chuva da PLR para toda a organização, incluindo a cúpula.
Medindo por empresa a história mais relevante não está na divisão bônus/PLR, mas no crescimento do perfil híbrido (empresas que usam os dois instrumentos simultaneamente): de 12,7% em 2022 para 18,0% em 2024 no FRE. No mesmo período, o perfil "só PLR" recuou de 39,2% para 30,8% sinal de que mais companhias estão combinando os dois instrumentos em vez de usar PLR puro. Setores PLR-intensivos como Transportes (99% PLR) e Bancos (87%) explicam por que a amostra AGOE 2025, que os sobrerrepresenta, mostra 31,4% de empresas apenas com PLR frente a 52,9% apenas com bônus.
A dispersão setorial é o fenômeno central: amplitude de 113 pontos percentuais entre Bancos (+55%) e Comunicação e TI (−58%). Para CHROs e conselheiros que precisam posicionar a proposta de ICP 2026 frente a um benchmarking, o setor de referência importa mais do que a média geral.
Três referências da mesma base — todos os dados de 2025, mesmos setores, mesma unidade.
Realizado: ICP efetivamente pago.
Valor alvo: target de 100% de atingimento.
Teto: envelope máximo aprovado pelos acionistas — o limite que o conselho pode pagar em performance excepcional. A distância entre realizado e alvo revela o atingimento implícito; a distância entre alvo e teto é o espaço discricionário do conselho.
A Pris mapeou 1.996 ocorrências de KPI em 350 políticas (FRE 2022–2024 + AGOE 2025). De partida: 22,8% das ocorrências (455) ficaram fora do vocabulário controlado — formulações vagas, abreviações setoriais ou termos não padronizados. Sobre os 1.541 classificados: Financeiro = 48,9% · Discricionário = 29,1% · Operacional = 12,2% · ESG = 9,7%.
O KPI mais frequente da amostra é "Metas Coletivas" (11,0% do total) — uma categoria essencialmente discricionária. Somando com Desempenho Individual e Projetos Estratégicos, o bloco discricionário chega a 29,1% dos classificados.
Quatro padrões destacam-se:
Educação tem maior peso operacional (27%) e menor discricionário (12%) — reflexo de KPIs como matrículas, NPS e evasão.
Saneamento é o único setor em que ESG (20%) supera o operacional.
Energia Elétrica tem 21% de KPIs operacionais (DEC/FEC, NPS, segurança).
Bancos é o único setor onde Desempenho Individual supera todos os KPIs financeiros — e o único com zero superações de target no FRE 2022–2024.
Nota metodológica — FRE vs. AGOE: O FRE cobre o universo completo com prazo padronizado. As AGOs de abril representam uma fração seletiva com viés de porte. Todas as comparações 2024→2025 usam matched sample.
Os dados das AGOs de 2026 mostram que os valores pagos em incentivos de curto prazo só fazem sentido quando lidos à luz das metas, métricas e critérios que os sustentam. O foco não deveria estar apenas no payout, mas na consistência entre desempenho apurado e remuneração efetivamente concedida.
Nesse contexto, a AGO se consolida como um instrumento de leitura da qualidade do desenho dos incentivos. Mais do que quanto foi pago, o que realmente importa é se o pagamento reflete, de fato, geração de valor e disciplina na definição de metas.