Abril chegou e com ele a temporada das Assembleias Gerais Ordinárias (AGO). Para CHROs, conselheiros e investidores institucionais, este é o período mais crítico do ano em matéria de governança de remuneração.
Pela Lei das S.A. (art. 152) e pela regulação da CVM, toda companhia aberta é obrigada a submeter anualmente à AGO a proposta de remuneração global (acompanhada do item 8 do formulário de referência) ou individual dos administradores, incluindo Diretoria Estatutária, Conselho de Administração e Conselho Fiscal para deliberação dos acionistas, podendo a mesma ser rejeitada, dai a criticidade do tema.
Extraímos e analisou os dados de convocações de AGO 2026 de 129 companhias abertas publicadas até 03/04/2026, e com previsão de assembleia ainda esse mês. Aqui estão os principais achados.
O Retrato de 2025: O Que Foi Pago
O que é RPM? — Remuneração por Membro = remuneração total da Diretoria Estatutária ÷ número de membros remunerados no período.
Permite comparar empresas de portes diferentes numa base comum: o custo médio por executivo. Os percentis P25/P50/P75 mostram a dispersão das empresas dentro de cada setor — metade delas está entre P25 e P75, e o P50 (mediana) é o valor central da distribuição.

Alimentos (R$ 6,9M) e Bancos (R$ 5,2M) lideram a mediana setorial. Na outra ponta, Saneamento apresenta simultaneamente a menor mediana (R$ 1,7M) e a maior dispersão da amostra P25 de R$ 0,4M contra P75 de R$ 4,9M reflexo de um setor que mistura estatais regionais com concessões privadas de grande porte.
Telecomunicações e Comércio têm os maiores spreads interquartis proporcionais, sinalizando mercados heterogêneos onde empresas de portes e modelos de negócio muito distintos convivem na mesma classificação. Transp. e Logística, ao contrário, apresenta intervalo P25P75 comprimido em torno da mediana setor mais homogêneo no nível de remuneração entre as empresas de capital aberto.
Para além da Diretoria: CA e CF
A Diretoria concentra o maior escrutínio, mas Conselho de Administração e Conselho Fiscal também são avaliados pelo proxy advisors:
Previsto vs. Realizado: A Régua da Aprovação
Em praticamente todos os setores, a remuneração efetivamente paga em 2025 ficou abaixo do teto aprovado em AGO. A mediana geral de desvio é de −13%.
Têxtil e Vestuário é o único setor com desvio praticamente nulo (−0,1%) executivos consumiram, em mediana, quase 100% do teto aprovado. Farmacêutico (100% das empresas abaixo do previsto) e Educação (85,7%).
Casos extremos (anonimizados)
Quando olhamos para casos individuais, a amplitude é muito maior do que a mediana setorial sugere. Quinze empresas apresentam desvio superior a 50% em módulo:
Desvios positivos extremos: os casos de +184% (Comunicação e TI) e +453% (Bancos) os desvios vieram da parcela variável e em uma mudança estrutural do pacote de remuneração da diretoria estatutária.
Paymix: Como o Dinheiro É Dividido por Setor
Não basta saber quanto se paga, é preciso entender como se paga. A composição da remuneração realizada em 2025 revela as apostas estratégicas de cada setor em atração, retenção e alinhamento de interesses com os acionistas.
Mediana dos percentuais individuais de cada empresa por setor · empresas com cobertura ≥ 90% dos componentes declarados · Outros inclui benefícios, previdência e encargos
Petróleo e Gás lidera em ILP (40%), único setor onde o longo prazo é o maior componente individual na empresa mediana, reflexo de modelos de remuneração típicos de indústrias com horizonte de retorno longo e ciclos de capital intensivo.
Telecomunicações aparece em segundo lugar em ILP (32%), com mix relativamente equilibrado entre os três componentes principais. Agricultura (20%) e Têxtil e Vestuário (20%) completam o grupo de setores com presença relevante de ILP na mediana.
Quatro setores apresentam ILP mediano igual a zero — Energia Elétrica, Saneamento, Máquinas e Equipamentos e Bancos, indicando que a maioria das empresas nesses segmentos não utiliza remuneração baseada em ações como componente relevante. O ILP, quando existe, é praticado por uma minoria e não caracteriza o setor na empresa típica.
Construção Civil registra o maior ICP da amostra (50%), seguida de Transporte e Logística (53%). Ambos os setores concentram incentivos no curto prazo (ICP), provavelmente atrelados a entregas de projetos e metas operacionais de ciclo anual.
Bancos, contrariamente à percepção de mercado, é o segundo setor mais fixo-intensivo da amostra (66% fixo) quando se observa a empresa mediana. O resultado reflete a estratégia de programas de Partnership onde a parcela de Incentivo de Longo Prazo não é interpretada como remuneração para fins de aprovação da remuneração global.
O Que Está Sendo Proposto para 2026
Se em 2025 a maioria das companhias pagou abaixo do teto aprovado, o que propõem para 2026? Em praticamente todos os setores, a resposta é: aumentos expressivos.
A variação mediana geral entre realizado 2025 e proposto 2026 é de aproximadamente +30% (mediana dos ratios individuais) muito superior à inflação do período. Isso levanta a questão que os proxy advisors certamente vão fazer: quais argumentos sustentam esse reajuste?
Para Bancos (+71%) e Transporte (+49%), o escrutínio dos acionistas nas AGOs de 2026 será inevitável.
Conclusão
Este artigo apresentou o panorama da remuneração executiva em 2025 e as principais perspectivas já embutidas nas propostas levadas às Assembleias Gerais Ordinárias de 2026. Os dados revelam um cenário em que, apesar de a remuneração realizada ter ficado majoritariamente abaixo dos tetos aprovados, as companhias chegam às AGOs de 2026 com propostas de aumentos relevantes, o que naturalmente desloca o foco do debate para além dos valores absolutos.
Nas AGOs, os maiores questionamentos tendem a se concentrar nos componentes da remuneração: como os incentivos de curto e longo prazo são estruturados, quais métricas efetivamente condicionam o pagamento variável e até que ponto os planos aprovados refletem, na prática, alinhamento com performance e criação de valor.
É a partir desse contexto que este estudo dá início a uma série de conteúdos dedicada a aprofundar os principais blocos da remuneração executiva analisados nas assembleias:
AGO 2026: Incentivos de Curto Prazo, Metas e Valores Pagos
Este artigo utiliza dados extraídos pela plataforma PRIS a partir de documentos públicos disponibilizados pela CVM, incluindo Formulários de Referência e convocações de AGO 2026. A amostra contempla 129 companhias abertas brasileiras, com dados disponíveis para a Diretoria Estatutária. Informações metodológicas, critérios de filtragem e detalhes sobre o tratamento de desvios individuais — apresentados de forma anonimizada — estão disponíveis mediante solicitação.
