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O que é “ROI” em Incentivos de Longo Prazo?

Escrito por Wil Ferreira | 26/01/26 17:29

Os Incentivos de Longo Prazo (ILPs) evoluíram de uma ferramenta restrita a multinacionais para um dos principais mecanismos de retenção, criação de valor e alinhamento entre executivos e acionistas no Brasil. A dúvida que se tornou universal entre CFOs, CHROs, conselheiros e founders é simples, mas crítica: como medir o ROI de um plano de ILP? 

Essa resposta exige rigor técnicoentendimento contábildomínio jurídico‑tributário brasileiro e clareza estratégica. O ROI de um ILP não se restringe ao custo contábil ou à valorização das ações, ele se manifesta na capacidade do plano de movimentar a performance da empresa, gerar valor para o acionista e preservar talentos críticos, reduzindo custos invisíveis que não aparecem no DRE, mas influenciam diretamente a competitividade. 

O que é “ROI” em Incentivos de Longo Prazo? 

O ROI de um ILP precisa ser entendido em três dimensões complementares: 

O desafio técnico de medir ROI em ILPs: o que a literatura aponta 

 Avaliar o ROI de ILPs difere de mensurar campanhas de marketing ou CAPEX. O retorno é: 

  • Plurianual, 
  • Afetado por governança e mix de métricas, 
  • Influenciado por desenho jurídico e tributário, 
  • Sensível ao tipo de veículo escolhido (RSUs, opções, phantom units etc.). 

Meta‑análises recentes — as mais abrangentes do mundo sobre remuneração de executivos, indicam relação positiva, porém heterogênea, entre incentivos de longo prazo e performance, variando conforme tamanho da empresa, sistema de governança, setor e maturidade dos planos. Isso reforça a necessidade de modelos de avaliação estruturados e livres de vieses. 

No Brasil, estudos com empresas do Novo Mercado mostram que a presença de planos baseados em ações não implica, por si só, melhor desempenho financeiro, ou seja, a qualidade do desenho do plano é determinante. 

O framework definitivo para medir o ROI de um ILP 

A seguir, elaboramos um exemplo de modelo mais robusto e aplicável ao mercado brasileiro, estruturado para atender empresas de diversos portes, de companhias abertas a scale-ups pré-IPO. 

Etapa 1 — Defina o “R”: qual retorno estamos medindo? 

O retorno de um ILP deve combinar três clusters de métricas: 

a) Financeiras (core do ROI econômico)

  • Crescimento do EPS (lucro por ação) antes e depois da implementação. 
  • TSR relativo contra peers — padrão de FTSE, S&P e Ibovespa.
  • Evolução de ROIC e geração de caixa.
  • Aderência a metas estratégicas do ciclo trimestral/anuais agregadas ao horizonte do LTI.

Essas métricas são especialmente importantes em empresas abertas ou com governança equivalente.

b) Operacionais

  • Margem operacional e eficiência.
  • Inovação (P&D, patentes, novos produtos). Pesquisas mostram forte impacto quando há vesting longo.
  • Market share ou milestones estratégicos.

c) Organizacionais (subestimadas, mas cruciais)

  • Retenção de talentos-chave (medida como probabilidade de permanência × custo de reposição). 
  • Tempo médio de permanência pré e pós‑ILP. 
  • Engajamento de executivos elegíveis. 

Essa camada costuma gerar ROI significativo, mesmo quando os efeitos financeiros diretos demoram mais para emergir. 

Etapa 2 — Calcule o “I”: o custo real do ILP 

A maioria das empresas brasileiras subestima o investimento total de um ILP. Ele deve incluir: 

Custo Contábil (IFRS 2) 

- Fair value dos instrumentos (options, RSUs, phantom etc.).
- Particularmente relevante: TSR como métrica aumenta fair value via modelos Monte Carlo, impactando despesa. 

Custo de Caixa (quando aplicável) 

- Pagamentos de phantom shares ou bônus de longo prazo.

Diluição (em ILPs baseados em ações reais) 

- Impacto no capital social no caso de empresas abertas ou em estrutura de cap table para scale-ups.

Complexidade operacional 

- Administração do plano, comunicação, governança e auditoria. 

Custo Jurídico-Tributário (Brasil) 

No Brasil, a avaliação correta do ROI depende de respeitar: 

- Onerosidade, 
- Voluntariedade,
- Risco. 

Como critérios fundamentais para que stock options sejam classificadas como mercantis, evitando requalificação trabalhista e mantendo tributação como ganho de capital — decisiva para preservar ROI líquido. 

Etapa 3 — Estabeleça o método de análise: isolando o efeito do ILP 

Para garantir precisão, utilize métodos inspirados em pesquisas internacionais sobre incentivos: 

a)Benchmarksexternos (peer group estruturado)

Compara TSR, EPS e margens com empresas de porte/segmento similar. Essencial para companhias abertas. 

b) Grupos de controle internos

Compara performance e retenção de beneficiários versus não‑beneficiários sob condições similares. Métodos como propensity score e diferenças‑em‑diferenças já foram usados em estudos sobre stock options e desempenho corporativo. 

c) Janela mínima de 3 anos

Consistente com padrões globais de LTI e com dados históricos de payout. 

Como transformar essa análise em um ROI concreto 

Depois de mensurar retorno e investimento, é possível calcular o ROI em três dimensões complementares: 

ROI Financeiro 

ROI Econômico (EVA / ROIC) 

Avalia melhora incremental na rentabilidade do capital. 

ROI Organizacional 

Valor presente da retenção multiplicado por custo evitado de substituição (com diretoria e C‑level podendo representar 8 a 24 meses de remuneração total). 

Esse conjunto cria uma visão holística indispensável para decisões de conselho. 

O que aumenta (ou destrói) o ROI de um ILP 

Fatores que aumentam o ROI 

  • Fórmulas de vesting “binding” (metas financeiras + não financeiras): reduzem manipulação de earnings e aumentam alinhamento.
  • Mix equilibrado entre TSR, ROIC e EPS, evitando métricas de curto prazo.
  • Veículos eficientes (RSUs/PSUs) quando a empresa busca estabilidade de valor.
  • Comunicação clara do plano e educação financeira interna. 

 Fatores que destroem o ROI 

  • TSR sozinho (line‑of‑sight fraco).
  • Planos sem risco real ou sem onerosidade — no Brasil, isso implica requalificação tributária e aniquila o ROI.
  • Metas irreais ou muito sensíveis a macroeconomia.
  • Ausência de governança estruturada.

A realidade brasileira: o ROI precisa considerar o contexto local 

O mercado brasileiro de ILPs está em rápida evolução. Pesquisas recentes mostram: 

  1. Adoção crescente de ações restritas (32%), phantom shares e performance units, devido ao cenário de juros elevados e foco em retenção.
  2. Empresas priorizando flexibilidade e percepção de valor, em detrimento de planos de longo prazo demais ou excessivamente otimistas.
  3. Debate jurídico-tributário avançando, com decisões que reforçam a natureza mercantil das stock options — o que influencia diretamente o ROI líquido.

Por isso, um ROI realista no Brasil exige integrar os três elementos:

  • Economia (juros, volatilidade, liquidez)
  • Tributação (CVM, STJ, critérios mercantis)
  • Governança (transparência, controles e documentação)

Conclusão 

Medir o ROI de um plano de Incentivos de Longo Prazo não é apenas calcular o ganho versus custo. É, acima de tudo, exercer disciplina estratégica. As empresas brasileiras que realizam essa mensuração de forma técnica conseguem: 

  1. Capturar valor financeiro real,
  2. Reter talentos que sustentam a estratégia,
  3. Alinhar executivos e acionistas,
  4. Reduzir riscos jurídicos e contábeis,
  5. e, principalmente, tomar decisões mais inteligentes sobre quais instrumentos, métricas e prazos realmente geram retorno. 

ILP bem desenhado não é despesa — é um investimento em criação de valor. E como todo investimento, exige métododados e governança. 

Se o objetivo é construir uma empresa resiliente, escalável e preparada para o futuro, medir o ROI de forma estruturada é uma etapa inegociável.