Os Incentivos de Longo Prazo (ILPs) evoluíram de uma ferramenta restrita a multinacionais para um dos principais mecanismos de retenção, criação de valor e alinhamento entre executivos e acionistas no Brasil. A dúvida que se tornou universal entre CFOs, CHROs, conselheiros e founders é simples, mas crítica: como medir o ROI de um plano de ILP?
Essa resposta exige rigor técnico, entendimento contábil, domínio jurídico‑tributário brasileiro e clareza estratégica. O ROI de um ILP não se restringe ao custo contábil ou à valorização das ações, ele se manifesta na capacidade do plano de movimentar a performance da empresa, gerar valor para o acionista e preservar talentos críticos, reduzindo custos invisíveis que não aparecem no DRE, mas influenciam diretamente a competitividade.
O que é “ROI” em Incentivos de Longo Prazo?
O ROI de um ILP precisa ser entendido em três dimensões complementares:

O desafio técnico de medir ROI em ILPs: o que a literatura aponta
Avaliar o ROI de ILPs difere de mensurar campanhas de marketing ou CAPEX. O retorno é:
- Plurianual,
- Afetado por governança e mix de métricas,
- Influenciado por desenho jurídico e tributário,
- Sensível ao tipo de veículo escolhido (RSUs, opções, phantom units etc.).
Meta‑análises recentes — as mais abrangentes do mundo sobre remuneração de executivos, indicam relação positiva, porém heterogênea, entre incentivos de longo prazo e performance, variando conforme tamanho da empresa, sistema de governança, setor e maturidade dos planos. Isso reforça a necessidade de modelos de avaliação estruturados e livres de vieses.
No Brasil, estudos com empresas do Novo Mercado mostram que a presença de planos baseados em ações não implica, por si só, melhor desempenho financeiro, ou seja, a qualidade do desenho do plano é determinante.
O framework definitivo para medir o ROI de um ILP
A seguir, elaboramos um exemplo de modelo mais robusto e aplicável ao mercado brasileiro, estruturado para atender empresas de diversos portes, de companhias abertas a scale-ups pré-IPO.
Etapa 1 — Defina o “R”: qual retorno estamos medindo?
O retorno de um ILP deve combinar três clusters de métricas:
a) Financeiras (core do ROI econômico)
- Crescimento do EPS (lucro por ação) antes e depois da implementação.
- TSR relativo contra peers — padrão de FTSE, S&P e Ibovespa.
- Evolução de ROIC e geração de caixa.
- Aderência a metas estratégicas do ciclo trimestral/anuais agregadas ao horizonte do LTI.
Essas métricas são especialmente importantes em empresas abertas ou com governança equivalente.
b) Operacionais
- Margem operacional e eficiência.
- Inovação (P&D, patentes, novos produtos). Pesquisas mostram forte impacto quando há vesting longo.
- Market share ou milestones estratégicos.
c) Organizacionais (subestimadas, mas cruciais)
- Retenção de talentos-chave (medida como probabilidade de permanência × custo de reposição).
- Tempo médio de permanência pré e pós‑ILP.
- Engajamento de executivos elegíveis.
Essa camada costuma gerar ROI significativo, mesmo quando os efeitos financeiros diretos demoram mais para emergir.
Etapa 2 — Calcule o “I”: o custo real do ILP
A maioria das empresas brasileiras subestima o investimento total de um ILP. Ele deve incluir:
Custo Contábil (IFRS 2)
- Fair value dos instrumentos (options, RSUs, phantom etc.).
- Particularmente relevante: TSR como métrica aumenta fair value via modelos Monte Carlo, impactando despesa.
Custo de Caixa (quando aplicável)
- Pagamentos de phantom shares ou bônus de longo prazo.
Diluição (em ILPs baseados em ações reais)
- Impacto no capital social no caso de empresas abertas ou em estrutura de cap table para scale-ups.
Complexidade operacional
- Administração do plano, comunicação, governança e auditoria.
Custo Jurídico-Tributário (Brasil)
No Brasil, a avaliação correta do ROI depende de respeitar:
- Onerosidade,
- Voluntariedade,
- Risco.
Como critérios fundamentais para que stock options sejam classificadas como mercantis, evitando requalificação trabalhista e mantendo tributação como ganho de capital — decisiva para preservar ROI líquido.
Etapa 3 — Estabeleça o método de análise: isolando o efeito do ILP
Para garantir precisão, utilize métodos inspirados em pesquisas internacionais sobre incentivos:
a)Benchmarksexternos (peer group estruturado)
Compara TSR, EPS e margens com empresas de porte/segmento similar. Essencial para companhias abertas.
b) Grupos de controle internos
Compara performance e retenção de beneficiários versus não‑beneficiários sob condições similares. Métodos como propensity score e diferenças‑em‑diferenças já foram usados em estudos sobre stock options e desempenho corporativo.
c) Janela mínima de 3 anos
Consistente com padrões globais de LTI e com dados históricos de payout.
Como transformar essa análise em um ROI concreto
Depois de mensurar retorno e investimento, é possível calcular o ROI em três dimensões complementares:
ROI Financeiro

ROI Econômico (EVA / ROIC)
Avalia melhora incremental na rentabilidade do capital.
ROI Organizacional
Valor presente da retenção multiplicado por custo evitado de substituição (com diretoria e C‑level podendo representar 8 a 24 meses de remuneração total).
Esse conjunto cria uma visão holística indispensável para decisões de conselho.
O que aumenta (ou destrói) o ROI de um ILP
Fatores que aumentam o ROI
- Fórmulas de vesting “binding” (metas financeiras + não financeiras): reduzem manipulação de earnings e aumentam alinhamento.
- Mix equilibrado entre TSR, ROIC e EPS, evitando métricas de curto prazo.
- Veículos eficientes (RSUs/PSUs) quando a empresa busca estabilidade de valor.
- Comunicação clara do plano e educação financeira interna.
Fatores que destroem o ROI
- TSR sozinho (line‑of‑sight fraco).
- Planos sem risco real ou sem onerosidade — no Brasil, isso implica requalificação tributária e aniquila o ROI.
- Metas irreais ou muito sensíveis a macroeconomia.
- Ausência de governança estruturada.
A realidade brasileira: o ROI precisa considerar o contexto local
O mercado brasileiro de ILPs está em rápida evolução. Pesquisas recentes mostram:
- Adoção crescente de ações restritas (32%), phantom shares e performance units, devido ao cenário de juros elevados e foco em retenção.
- Empresas priorizando flexibilidade e percepção de valor, em detrimento de planos de longo prazo demais ou excessivamente otimistas.
- Debate jurídico-tributário avançando, com decisões que reforçam a natureza mercantil das stock options — o que influencia diretamente o ROI líquido.
Por isso, um ROI realista no Brasil exige integrar os três elementos:
- Economia (juros, volatilidade, liquidez)
- Tributação (CVM, STJ, critérios mercantis)
- Governança (transparência, controles e documentação)
Conclusão
Medir o ROI de um plano de Incentivos de Longo Prazo não é apenas calcular o ganho versus custo. É, acima de tudo, exercer disciplina estratégica. As empresas brasileiras que realizam essa mensuração de forma técnica conseguem:
- Capturar valor financeiro real,
- Reter talentos que sustentam a estratégia,
- Alinhar executivos e acionistas,
- Reduzir riscos jurídicos e contábeis,
- e, principalmente, tomar decisões mais inteligentes sobre quais instrumentos, métricas e prazos realmente geram retorno.
ILP bem desenhado não é despesa — é um investimento em criação de valor. E como todo investimento, exige método, dados e governança.
Se o objetivo é construir uma empresa resiliente, escalável e preparada para o futuro, medir o ROI de forma estruturada é uma etapa inegociável.
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