A pergunta costuma surgir em reuniões de orçamento ou no Conselho de Administração: “Estamos gastando milhões em ações e opções para executivos. Qual é o ROI disso?”
Para o CFO, habituado a calcular o retorno sobre o investimento de uma nova fábrica ou de um software, a resposta relacionada aos Incentivos de Longo Prazo muitas vezes soa vaga. Fala-se em retenção, alinhamento e cultura de dono, mas o número na última linha da planilha raramente aparece.
Esse contexto alimentou um mito no mercado: a ideia de que o retorno dos Incentivos de Longo Prazo é intangível ou impossível de isolar.
Medir o sucesso de um plano de incentivos requer rigor técnico para capturar custos menos visíveis e visão estratégica para mensurar retornos que não se materializam de forma imediata no EBITDA.
Por que parece impossível? (O Desafio Técnico)
Antes de mostrar como calcular, é preciso validar por que é tão difícil. Ao contrário de uma máquina que você liga e produz peças, o ILP atua sobre o comportamento humano e o mercado de capitais.
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O Ruído Exógeno: Se a ação da empresa subiu 20%, foi por causa do plano de incentivos ou porque o juro do país caiu? Isolar a variável "esforço do executivo" da variável "sorte de mercado" é o maior desafio estatístico.
- O Horizonte Temporal: O custo é contabilizado hoje (na outorga/vesting), mas o retorno estratégico (inovação, sucessão, novos mercados) pode levar 5 anos para maturar.
- A Heterogeneidade: Meta-análises globais mostram que ter um ILP não garante performance. O que gera ROI não é ter o plano, é a qualidade do desenho do plano.
Dito isso, as empresas mais maduras do Brasil já superaram essa barreira. Elas não buscam um número mágico único, mas um Framework de Retorno composto por três dimensões.
O Framework de ROI: Como tornar o cálculo possível
Para chegar a uma resposta defensável perante o Conselho, sugerimos quebrar o ROI em três camadas complementares:
1. O ROI Financeiro (A linha de cima e de baixo)
Aqui olhamos para métricas duras. É a camada mais óbvia, mas onde se cometem mais erros de atribuição.
- Crescimento do EPS (Lucro por Ação): Comparar a evolução do EPS antes e depois da implementação do plano, ajustado por recompras de ações.
- TSR Relativo (Total Shareholder Return): Sua ação performou melhor que a dos seus concorrentes diretos (peer group)? Se o setor caiu 10% e você caiu apenas 2%, o ILP pode ter blindado valor.
- EVA/ROIC Incremental: O plano acelerou a criação de valor econômico acima do custo de capital?
2. O ROI Organizacional (O custo evitado)
Esta é a camada mais subestimada, mas frequentemente a que paga a conta do plano.
- Custo de Reposição Evitado: Perder um Diretor ou C-Level custa caro. Entre fee de headhunter (20-30% do pacote anual), sign-on bonus para o substituto, ramp-up (tempo de adaptação) e perda de histórico, a saída de um executivo chave pode custar de 12 a 24 salários mensais.
- Cálculo: Se o seu ILP aumentou a retenção média da diretoria de 3 para 5 anos, a economia gerada em custos de contratação e ruptura entra diretamente no numerador do ROI.
3. O ROI Estratégico (O alinhamento)
- Concretização de Milestones: O plano estava atrelado a metas não-financeiras críticas (ex: digitalização, ESG, entrada em novo mercado)? O atingimento dessas metas é um proxy direto de retorno.
O Denominador da Equação: Você está calculando o "Investimento" corretamente?
Para que o cálculo do ROI funcione, o "I" (Investimento) precisa ser realista. A maioria das empresas considera apenas o valor da outorga, mas o buraco é mais embaixo.
Um cálculo honesto de custo deve incluir:
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O Custo Contábil (IFRS 2): O Fair Value das opções ou ações. Atenção: Se o seu plano usa métricas de mercado (como TSR ou barreiras de preço), a precificação exige modelos complexos como Monte Carlo. Ignorar isso pode subestimar drasticamente sua despesa contábil.
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A Diluição: Para empresas abertas ou scale-ups, a emissão de novas ações dilui os sócios atuais. Isso é um custo societário real.
- O Risco Tributário (O Custo Oculto no Brasil): Se o seu plano for mal desenhado e perder o caráter mercantil (tornando-se remuneratório), incidem encargos trabalhistas e previdenciários (INSS, FGTS) que podem quase dobrar o custo do programa. Um ILP com risco jurídico alto é um destruidor de ROI.
Conclusão: Não é sobre matemática, é sobre disciplina
É possível calcular o ROI de um plano de ILP? Sim.
Mas não espere que o resultado venha em uma célula única de Excel dizendo "15%". O retorno do ILP é uma narrativa composta por dados financeiros (nossa ação performou melhor que os pares?), dados organizacionais (retivemos quem importava e economizamos milhões em reposição?) e dados operacionais (as metas de longo prazo foram batidas?).
Empresas que conseguem responder "sim" a essas três perguntas não precisam justificar o plano como "despesa". Elas provam, com dados, que o ILP é uma das alavancas de investimento mais eficientes do negócio.
Se a sua empresa ainda olha para o ILP apenas como "custo de folha", talvez o problema não esteja no plano, mas na falta de método para enxergar o valor que ele gera.
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